Crianças e mulheres resgatam dignidade participando de projetos da Secretaria de Habitação de João Pessoa
Inquietação, animação, energia, alegria e muito barulho. É difícil conter o entusiasmo da criançada diante de tanta novidade. A indisciplina infantil não chega a incomodar porque é o retrato da inocência que se vê diante do desconhecido, do novo, do inesperado. Os olhos dos pequeninos brilham, mas no instante em que se deparam com as notas musicais, o sentido que mais se vê aguçado é a audição.
Esse é o contexto onde se encaixa o grupo de 25 crianças, com idade entre 5 e 10 anos, alunos da Escola Municipal Deputada Lúcia Braga. Todas vivem no Residencial Vista Alegre, localizado no Colinas do Sul, e fazem parte do Projeto Davi, promovido pela Secretaria Municipal de Habitação de João Pessoa (Semhab).
O Projeto Davi é uma iniciativa de musicalização, com o objetivo de promover o resgate de valores morais e cívicos por meio da música, fortalecendo o senso de cidadania, disciplina, respeito e autoestima. Duas vezes por mês, o grupo é levado até o 1º Grupamento de Engenharia do Exército Brasileiro para aprender música. A Prefeitura oferece toda a estrutura, desde o veículo para levar os meninos e meninas até o lanche antes de voltar para casa.
Por trás dos rostos pequeninos, a grandiosidade do conhecimento que começa a ser impulsionado pelo som da ingenuidade. Diante das notas musicais as quais são apresentados, eles formam um grande coral de vozes que saem de um casulo para aprender a voar. E é quando começam a ressoar as primeiras canções que a disciplina surge como num passe de mágica, tal qual o momento em que a fada madrinha chega com a varinha de condão e tudo transforma.
A música infantil, mas que simplesmente lazer, incentiva a sociabilidade, o trabalho em equipe e a disciplina. A proposta é mostrar para a turminha que eles podem sonhar alto. “Eu tenho muita esperança que esse projeto dê frutos e essas crianças escapem da vulnerabilidade social. A música é como atrativo. Mas, no fundo, o que queremos é que elas conheçam a disciplina, os valores éticos e morais”, desabafa Cláudia Flávia Gouveia Rodrigues, assistente social da Semhab que lidera o Projeto Davi, cujo nome foi escolhido pelo significado do pequeno que vence o gigante.
Cláudia viaja nas lembranças de quando tudo começou e demonstra a alegria de poder fazer parte da vida dessas crianças, abrindo para elas as portas para um futuro promissor. “No Natal do ano passado, a gente teve a iniciativa de levar a orquestra do Exército para fazer uma apresentação que eles nunca tinham visto. E todos ficaram encantados com os instrumentos, com as fardas. E nós pensamos: essa é a hora de mostrar um universo novo para essas crianças. Quando terminou a apresentação, falamos com o regente sobre a possibilidade de fazer um trabalho com as crianças, e daí surgiu a parceria entre Prefeitura de João Pessoa e o Exército Brasileiro”, relatou.
O grupo atual ficará um ano no aprendizado musical. Dias que certamente irão refletir por toda a vida. “O objetivo é resgatar, mudar o foco, é eles saberem que podem ser um militar, podem ser o quiser, se estudarem. Aliás, a frequência na escola, as notas estão vinculadas ao projeto. Tem que estar frequentando a escola, tirando boas notas”, explicou Cláudia Gouveia.
Olhar além das paredes de concreto – O termo ‘habitação social’ não existe por acaso. O conceito de habitação social abrange um conjunto de políticas públicas, programas e iniciativas, que visam oportunizar residências acessíveis e adequadas para a população de baixa renda ou em situação de vulnerabilidade.
Significa que, para além de paredes de concreto, uma habitação para ser social tem que oferecer condições para as famílias que ali vão morar, garantido acesso fácil e seguro a educação, infraestrutura, lazer, saúde, transporte público e também oportunidade de ter uma vida digna, onde são assegurados às famílias emprego e renda e inclusão social.
A Prefeitura de João Pessoa entende esse conceito e o leva ao pé da letra. Por isso, o Projeto Davi não é o único a habitar, literalmente, entre as famílias beneficiadas pela Secretaria Municipal de Habitação, cuja tutela está nas mãos da secretária Socorro Gadelha. “A gente inclui um trabalho social pós-ocupacional muito forte, envolvendo geração de emprego e renda, entretenimento, trabalho com idosos, pessoas com deficiência e a questão da saúde. E temos dois projetos que a gente ressalta como muito importantes, que é o Projeto Davi e o projeto de mães de crianças com o espectro autista, que é o Eu Existo. No Eu Existo, a Secretaria dá todo o apoio necessário tanto às crianças quanto às mães, melhorando a qualidade de vida da família”, detalhou Socorro Gadelha.
Cláudia Gouveia Rodrigues também é uma das assistentes sociais que está à frente do Eu Existo. “Ao mesmo tempo em que ajudamos na situação com os filhos, orientando sobre o benefício do INSS e sobre acompanhamento médico. Nós fazemos um trabalho de resgate da mulher nesse projeto, porque são mulheres que se dedicam 24 horas aos filhos, a buscar tratamento para eles, a maioria sobrevivendo do Bolsa Família. Então, elas expõem os seus problemas e nós ajudamos a solucionar. Levamos, por exemplo, para odontólogos, passeios e, em breve, estaremos oferecendo capacitações para elas, que conseguirão estudar, porque os filhos estarão sob os cuidados de profissionais da rede municipal”, contou.
Empoderamento – Ana Paula Firmino do Nascimento, de 43 anos, é a inspetora da Escola Municipal Deputada Lúcia Braga, de onde saem as crianças para o Projeto Davi. Mas, nem sempre a vida dela foi assim, acompanhando os pequeninos. Quando Ana Paula chegou ao Residencial Vista Alegre, estava nas estatísticas das mulheres sem autoestima e sem perspectiva. A inspetora fez parte da primeira turma ajudada por um dos projetos sociais desenvolvidos pela Semhab. Agora, ela está totalmente empoderada e feliz.
“Minha vida era uma dificuldade muito grande. Ganhei o apartamento e através dos projetos da Habitação, tive a oportunidade de fazer um curso, me capacitei e consegui arrumar emprego. Na época era muito difícil, porque eu tinha quatro filhos. Hoje sou quem eu sou por causa dessa oportunidade, eu sou capaz por causa desse projeto. Aprendi muita coisa e já estou trabalhando há quatro anos. Os filhos cresceram e hoje sou exemplo para eles”, desabafou feliz.
Ana Paula é apenas um dos exemplos que revelam o poder de uma ação social dirigida com consciência e humanização. Os atores públicos que conduzem a Habitação Social em João Pessoa sabem, na prática, que uma boa ação não precisa de leis para ser aplicada na vida de personagens que escrevem a história da cidade, mesmo no anonimato.